Conta secreta era uma ‘poupança’ para a aposentadoria, diz João Santana

Estadão Conteúdo – “A
conta era mantida como uma ‘poupança’ para sua aposentadoria”, registra a
Polícia Federal, nas quatro páginas do depoimento do marqueteiro do PT João
Santana, preso há dois dias alvo da 23ª fase da Operação Lava Jato. Ele e a
mulher, Mônica Moura, são suspeitos de terem recebido pelo menos US$ 7,5
milhões por meio da conta secreta, na Suíça, em nome da offshore Shellbill Finance
SA.
Os pagamentos foram feitos
pela Odebrecht, por meio de offshores controladas por ela, segundo a Lava Jato,
e pelo operador de propinas ligado ao estaleiro holandês Keppel Fels Zwi
Skornicki – também preso na nova fase batizada Operação Acarajé.
“Com relação à conta
aberta na Suíça em nome da Shellbill Finance SA, acredita que tenha sido aberta
por volta do ano de 1998/99 para recebimento de valores de aproximadamente 70
mil dólares de um serviço prestado na Argentina”, registra a PF, no depoimento
ouvido pelo delegado Márcio Adriano Anselmo.

“É o controlador da
referida conta”, afirmou Santana, segundo registro da PF.
Disse que não sabe quem são os beneficiários e que
acreditava que a offshore era ligada à empresa Polis Argentina – que ele
declarou ser dono apenas em 2015. O marqueteiro soube que a conta não era
vinculada à empresa argentina em recente auditoria
Criador das campanhas eleitorais do casal, João Santana
explicou que é sua mulher e sócia, Mônica Moura, que cuida da área financeira e
administrativa dos negócios. A conta, segundo o marqueteiro, foi aberta por
intermédio de um representante no Uruguai, por indicação de um amigo argentino.
No Brasil, os dois foram os marqueteiros das últimas
três campanhas presidenciais do PT, Dilma Rousseff (2010 e 2014) e Luiz Inácio
Lula da Silva (2006). Fora do Brasil, participavam até domingo da campanha na
República Dominicana, mas atuaram em Angola, no Panamá, na Venezuela.
“(Santana) acredita que a conta passou a receber mais
volume de recursos nos anos de 2011/2012 quando o declarante atuou nas três
campanhas presidenciais no exterior”, afirmou o marqueteiro A campanha de Angola
teria custado US$ 50 milhões, “não se recordando do custo das campanhas na
República Dominicana e na Venezuela”.
Santana diz não ter como esclarecer a origem dos
valores que entraram na conta da Shelbill, nem o destino do dinheiro. “Mônica é
responsável pelas movimentações na referida conta.”
No caso dos recebimentos de offshores que seriam
ligadas à Odebrecht, Santana disse desconhecer os pagamentos feitos pela
empreiteira. No caso de Zwi, lembrou apenas que havia valores a receber pela
disputa eleitoral em Angola.
O marqueteiro disse lembrar que “em alguns momentos, em
razão de crises de liquidez, foram utilizados valores da referida conta para
aquisição de equipamentos ou pagamentos de fornecedores”.
Conta
Santana afirmou à PF que abriu a conta da Shellbill
quando iniciou sua carreira internacional em 1998, nas eleições na Argentina. O
marqueteiro do PT disse que no ano de 2002 retornou ao Brasil e atuou na
campanha ao Senado de Delcídio do Amaral (PT-MS).
“No ano de 2005/2006, em razão do caso mensalão, foi
convidado pelo então presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva para
atuar na campanha à Presidência do mesmo”, registra a PF. Citou em seu
histórico profissional ainda as campanhas de Marta Suplicy e Gleisi Hoffmann,
além da atuação como consultor na disputa eleitoral em Campinas.